domingo, 29 de setembro de 2013

Nova Matriz Energética



Esse conceito vem sendo desenvolvido pelo Rabino Nilton Bonder. Queria muito escrever sobre isso, pois casa perfeitamente com o Método Kabbalah Pardes. Então, decidi colocar aqui alguns conceitos apresentados pelo rabino na Rio 20 , e em alguns dos seus livros, como a Cabala do Dinheiro e Cabala da Comida. Também não deixa de ser uma homenagem a este grande estudioso a quem admiro muito e a quem tive a honra de ter tido como meu primeiro professor presencial de Kabbalah.

Pergunto a você: de onde vem sua alegria? Ou de onde você tira ou obtém prazer?

Se pararmos para pensar, veremos que nossos momentos mais felizes são quando recebemos um aumento de salário, ou conseguimos um bom emprego, ou ainda quando compramos alguma coisa que há tempo desejávamos...Essa seria na verdade a palavra-chave: a alegria vem quando satisfazemos nossos desejos!
Mas você também já deve ter percebido que, tal qual uma criança mimada, assim que nosso desejo é satisfeito, perdemos o interesse e passamos a almejar outra coisa, e depois outra e mais outra, inesgotavelmente.A questão é que esqueceram de nos falar que o tal do desejo é um poço sem fundo. Nunca se esgota. Mas, então, o que fazer? Uma vez que não aprendemos a ter outras fontes de prazer que não sejam o consumo, o sexo, a comida ou bebidas.

A proposta de fontes de energia alternativas, não é nova. Porém, nunca se falou tanto sobre o tema. Afinal, é urgente que procuremos alternativas que substituam o uso do petróleo, da energia elétrica, de fertilizantes e adubos químicos, entre outros, pois esses recursos, além de finitos, se mostraram onerosos demais para o planeta, por deixarem resíduos, por produzem uma energia "suja".
É como olhar-se no espelho: o que acontece com o planeta acontece conosco.Todos estamos esgotados, e não é exagerado dizer que estamos à beira de um colapso.
O fato é que toda energia oriunda de uma fonte de egoísmo, ou seja, que não vem da partilha, acaba por ser vazia, infrutífera, desprovida de graça. Logo: "perde a graça".

Há uma história preciosa contado por Nilton Bonder, que eu chamo de "Os banquetes". Ele nos conta que a um grande justo foi dada a dádiva de visitar o Céu e o Inferno. Primeiro ele foi levado ao Inferno. Lá, ele ficou maravilhado com a linda mesa posta que encontrou. Havia de tudo que pode haver de melhor para se comer. Contudo, as pessoas ali choravam e gritavam em grande desespero, pois sentiam muita fome. Elas podiam ver, podiam sentir o cheiro maravilhoso, mas não podiam comer. Foi, então, que ele percebeu que as pessoas tinham um defeito: todas elas possuíam os cotovelos voltados para trás, de modo que não conseguiam levar o alimento até a boca. Depois disso, ele foi levado ao Céu. Chegando lá, ele viu uma mesa exatamente idêntica a do Inferno. Contudo, havia muita alegria, todos falavam e cantavam. Ele observou melhor e viu que as pessoas tinham exatamente o mesmo defeito que as pessoas do Inferno: os cotovelos voltados para trás. A diferença no Céu, era que as pessoas se alimentavam umas às outras!


Podemos tirar daí que há duas fontes de energia inesgotáveis.



A primeira tem a ver com a Graça. A mesa está posta. O Universo nos mostra o tempo todo o quanto é próspero e abundante. Por mais dinheiro que se tenha, ninguém pode pagar para o sol surgir toda manhã ou para a chuva cair sobre a terra. Eles fazem parte da Graça. Uma pessoa que vive em estado de graça, vive em perfeita harmonia com o fluxo de entrada e saída do Universo. A graça é a capacidade, ou habilidade, de engajar-se na vida tal qual ela é, Sem querer ou exigir que seja diferente. Simplesmente se é. A cachoeira é, independente de estar na época das chuvas ou de seca. Ela vive pela graça de existir.

A segunda fonte de energia pura está no ato de Servir. O de descobrir o sentido da vida por meio do vínculo. As pessoas que "vivem no céu" descobriram que sendo úteis umas às outras, possibilita que todas usufruam da "mesa posta" do Universo. E, que ao contrário do que se acredita, quanto mais damos, mais temos para dar. O Universo funciona de maneira contrário ao que nos é apregoado.Quanto mais nos damos, mais recebemos. Quanto mais servimos, mais somos servidos. Não como uma moeda de troca, mas porque essa é a lei natural: não pode entrar energia nova, coisas novas, em uma vida que já está tomada, que nunca se esvazia de si.Em outras palavras: dois corpos não podem habitar o mesmo espaço.

A figura central da Kabbalah é a Árvore da Vida. Esse símbolo representa o ato de Compartilhar. É deixarmos de ser como crianças mimadas, que só querem receber somente para si mesmas, para tornarmos como o Criador, termos o desejo de compartilhar cada vez mais.
Nós podemos encontrar sentido na vida tanto pelo serviço quanto pela graça. E isso não é algo que podemos controlar. Ao contrário do Prazer, que é tudo aquilo que a gente controla (e a gente está constantemente tentando controlar tudo).Aí a vida perde a graça.

Nas palavras do próprio Rabino, temos que "Saber viver a vida com Graça. Do contrário viveremos uma vida“sem graça”, apática, sem brilho.


O que é ser um kabbalista?

  
    Muitos alunos nos perguntam: O que devo fazer para me tornar um kabbalista?
   Primeira pergunta: Para que você quer aprender Kabbalah?
   Você pode saber muito sobre Kabbalah, sem contudo, jamais vir a tornar-se um kabbalista. 
    Sem dúvida que o estudo faz parte do dia a dia de todo discípulo e a sua importância é inquestionável.
   Porém, a Kabbalah é muito mais que isso. É um estado de alma, cuja harmonia e equilíbrio com as forças do Cosmo prevalecem acima do mundo de Malkhut. Você pode ficar imaginando que isso é algo muito difícil de alcançar e que, por isso, é apenas para uns poucos privilegiados. Grande engano! A Kabbalah, atualmente está disponíveis a todos: judeus e não judeus, mulheres e homens, ricos e pobres, jovens e idosos. 
  
 Conta-nos uma lenda que em sua própria época Baal Shem Tov já era conhecido nas cidades circunvizinhas a sua. Rab Dov Ber de Mezritsh, que mais tarde viria  ser seu sucessor, morava em uma dessas cidades e já era um ilustre rabino. Ele estava enfermo há um bom tempo e sempre ouvia alguém falar sobre o poder de cura do Senhor do Bom Nome (Baal Shem Tov). Porém, ele não aceitava seu modo de vida e nem acreditava que tinha tantos poderes assim como diziam. Pois, como as conversas andam, esse Baal Shem Tov, vivia envolvido nos problemas corriqueiros da gente simples da sua comunidade, além disso, ele estava sempre envolvido em festas com muita música e dança. Isso contrariava seu coração de judeu sério. Mas suas esposa acreditava no poder do mestre e insistia que viajassem a fim de fazer uma consulta com Baal Shem Tov,. Rab Dov Ber sempre relutava. Até que um dia, sua enfermidade agravou-se e ele acabou aceitando viajar até aquela pequena cidade e tentar se curar. Mas fazia isso só para agradar a esposa, pois eu coração era avesso ao mestre, como já disse.
Chegaram na casa de Baal Shem Tov e já estava escurecendo. Este os recebeu na porta com um grande sorriso. Rab Dov Ber de Mezritsh esperava que ele falasse sobre os mistérios do Universo, mas não, Baal Shem Tov insistia em falar dos cavalos, da carruagem, da estrada, do tempo... E foi assim durante todo o restante da tarde e no jantar. Rab Dov Ber estava muito enervado. A ponto de querer retornar para sua casa no mesmo instante. Pensava no grande erro que cometeu ao sair da sua cidade para conhecer um homem como qualquer outro e até pior, que ao contrário dos seus amigos, não se mostrava disposto a ficar conversando sobre as coisas da Torah e os grandes mestres do Talmud. Porém, já era tarde, seu cavalo já estava guardado na estribaria, a casa já fora fechada e os servos haviam ido descansar, de modo que ele teve que resignar-se a passar a noite ali.
No meio da noite, ele escutou vozes de leitura do Zohar que vinham da sala de estudos de Baal Shem Tov. Logo este apareceu e o convidou para ir até sua sala. Ele pediu que Rab Dov lesse para ele uma passagem do Zohar. Depois Baal Shem Tov pediu que ele explicasse aquela passagem.  Rab Dov ficou contentíssimo, pois o que mais gostava neste mundo era discutir as coisas sagradas e mostrar sua erudição. E realmente, ele leu lindamente e explicou com grande sabedoria  a passagem! Quando acabou, Baal Shem Tov tomou do Zohar e falou, agora é a minha vez. A cada palavra que o mestre pronunciava,uma chuva de graça inundava a sala e anjos iam se manifestando e atendendo aos pedidos do mestre, que intercedia por todos aqueles que vinham lhe pedir ajuda. Assim que terminou, Baal Shem Tov agradeceu ao Criador e a toda Sua Corte Celestial, ao patriarcas que vieram antes dele e a todos aqueles que se dedicaram e se dedicam ao trabalho espiritual. Rab Dov Ber estava maravilhado e perguntou ao mestre como aquilo havia acontecido, uma vez que ambos haviam lido a mesma passagem! Baal Shem Tov explicou: Seu conhecimento está apenas no nível intelectual, e suas palavras não conseguiram atravessar o telhado desta casa, enquanto que o meu brota do coração e pode alcançar as regiões celestes, "Na verdade, simplesmente, a suprema simplicidade da Infinita Luz brilha mais."(palavras do próprio mestre)

O kabbalista é aquele que têm as chaves dos portões celestiais. Não porque ele decorou algumas palavras mágicas, mas porque ele vivencia na alma esses outros mundos.

sábado, 28 de setembro de 2013

Kasher e Não-Kasher- Próprio ou Impróprio


     O conceito de kasher e não-kasher, foi trazido por Moisés como norma aos judeus do que deveria servir como alimento e do que não deveria. O discernimento entre o que seria apropriado e bom, do inadequado e impróprio.
 Podemos pensar: com base em quê os alimentos foram classificados em “próprios” e”impróprios”? A tradição judaica possui códigos de éticas tão avançados, ainda no nosso tempo. São mandamentos de como lidar com respeito às mulheres, funcionários ou superiores, às crianças e até à natureza, que ficamos assombrados com a sua atualidade.
   Talvez há quatro mil anos, não fazia muito sentido pensar no contexto em qual se produziu, ou se preparou, um alimento. Afinal, não existiam agrotóxicos, transgênicos..e o conceito de Ecologia só surgiu há pouco mais de três décadas!
  Há muita especulação sobre o tema. Algumas são bem interessantes. Como a que diz a cerca dos animais puros e impuros. Claro que não estamos falando que há animais superiores ou inferiores. A questão é mais delicada. Os animais considerados “impuros” são os responsáveis pela “limpeza” do seu meio. Como por exemplo o corvo (tido como animal “impuro”), ele é o responsável pela limpeza do “Ar”. Do mesmo modo o porco também é considerado impuro, e este seria o “gari” da Terra, e os crustáceos e peixes com pele, seriam os responsáveis pela “limpeza” das Águas. Se estes animais desaparecessem do Planeta, o que isso implicaria no meio-ambiente? Hoje sabemos que o desaparecimento de qualquer espécie, implica em todo um desequilíbrio no ecossistema. Imagina se ficarmos uma semana sem a coleta de lixo? Acredito que deu para perceber que a questão é bem mais séria do que um simples dogma!
Como tudo na vida, podemos extrair daí uma grande lição: não criticar o que não conhecemos. Ou pelo menos, respeitar, pois pode haver uma grande sabedoria por trás de atos considerados “manias”, "tradições" ou "costumes"praticados por outras tradições.
Voltando...
A questão do que é “apropriado” do “não-apropriado”, ganhou uma dimensão gigantesca nos dias de hoje. Claro que com um roupagem mais moderna, falamos em o que é “sustentável” e o que "não é sustentável”. Há ponto de pensarmos em roupas sustentáveis, carros sustentáveis, casas sustentáveis, e lógico, alimentos sustentáveis!

Kabbalah é recebimento, e será que estamos sendo sustentáveis com este Planeta que recebemos? 
O nosso modo de tratar o outro, de lidar com o consumo, os nossos pensamentos e sentimentos são kasher ou não-kasher?
O kabbalista é aquele que sabe que cada ação sua, influi diretamente em todos os mundos. Não apenas no que diz respeito a bens de consumo, mas a atos, pensamentos e emoções. Cada ato de caridade ou misericórdia reverbera para todas as criaturas em ondas de amor  e luz.

No meu primeiro contato com o judaísmo passei dias atenta a tudo o que levava à boca.O tempo todo me perguntava : “Isso é kasher ou não-kacher? Foi um grande exercício de estar consciente a tudo o que consumia. 
Essa é a proposta do Método Kabbalah Pardes, que vê o mundo como um grande quintal, do qual somos recebedores e herdeiros e, portanto, responsáveis.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sucot e o Espaço e Tempo



O que é Sucot? O Sucot faz parte das comemorações que inauguram o Novo Ano Judaico, após os pesados dias de Yom Kipur. É uma época para lembrar o tempo em que Israel viveu peregrinando no deserto sob a sombra protetora de D’us. E aí reside a questão: viveu ou vive? Podemos pensar que, metaforicamente, ainda passamos por desertos e o Eterno, com sua infinita misericórdia, ainda nos guarda. Mas não falo disso. Falo de um tempo real. Será que aquele tempo passou? Já não existe mais? Ou ele continua ressoando em algum lugar do Universo?
E a festa de Sucot é justamente, o momento de conectarmos com aquele tempo, com aquela energia que não passou, mas que está acontecendo em algum lugar neste momento. Confuso? Pode parecer, mas é bom nos acostumarmos com estes conceitos. A questão da infinitude do tempo, a que chamamos Eternidade é muito mais do que isso. Quando falamos em Eternidade imaginamos uma linha reta, sem começo nem fim. Mas e se pensarmos que não existe essa linha reta? Apenas um único ponto no qual tudo existe simultaneamente? Palavras como Passado ou Futuro desaparecem totalmente. O que fica é um Presente. Infinitamente mais rico e intenso. Um Presente Glorioso e Espetacular, tal como no dia da Criação, pois o Dia da Criação não deixou de existir, não está no passado. Ele está acontecendo neste exato momento. A mesma intensidade ainda pulsa. Adão ainda vive, as estrelas e os rios estão sendo formados neste exato momento. Isso para a Kabbalah não é novidade. Só que de tão real e banal, os místicos raramente pararam para teorizar sobre isso.
Bem, falamos do Tempo, e isso nos parece até familiar, como máquinas do tempo ou viagens à velocidade da luz. Mas ainda existe um outro ponto: o Espaço. Falava sobre Sucot, cujo símbolo é  a Sucá, ou seja “Cabana”. Construímos cabanas de acordo com as normas da Torah e por alguns dias vivemos ali. Ali fazemos nossas orações e comemos sentados próximos ao chão. O que te parece entrar em uma cabana para poder viajar no tempo e poder se conectar com a energia da proteção divina no deserto? A Cabana ou Sucá é este lugar sagrado, a nave mãe, ou o portal, o não-lugar capaz de nos conectar com qualquer um outro lugar. É de perder o chão! Sim. Pensar no Espaço tão concreto, na terra querida que pisamos e aceitar que isto aqui não existe, pode parecer demais para nossa mente! Este é outro ponto também muito conhecido dos mestres da Kabbalah.
Sempre que lia alguma história de Baal Shem Tov, ela normalmente começava assim: “ E Baal Shem Tov, juntamente com seus discípulos, tomaram uma carruagem e foram de Medjibur a Vilna, há algumas semanas de viagem dali...e em poucos minutos estavam em Vilna, pois isso sempre acontecia nas viagens com o mestre...” Isso me desconcertava. Contudo não havia qualquer explicação ou estranhamento com relação a este fato por parte do narrador. Ultrapassar barreiras físicas, grandes distancias, pegar atalhos por meio de uma carruagem.. nada de anormal...Coisa corriqueira... Nisso imagino o diálogo de Moisés com seu irmão Arão: “Olha, vou subir ali no monte e vou para o Céu falar com D’us. Cuida de tudo que logo desço”.
A sucá tem esse papel: o de ser um portal para além do tempo e do espaço. E, segundo o Zohar, ela possui uma ligação intrínseca com a Arca de Noé. No mundo há muitos portais físicos para outras dimensões: Jerusalém, Machu Picho, Triângulo da Bermudas... Mas o que o Criador quer nos ensinar quando nos manda construir nossa Sucá é que este portal pode ser criado por nossas próprias mãos, ou seja com nosso próprio esforço de vencer o Ego e as limitações da nossa mente. Aí, nós não teremos um portal, nós seremos o próprio Portal. Shabat Shalom!

sábado, 7 de setembro de 2013

RETIRANDO A KLIPAT - CASCA


Era uma vez, há cerca de 200 anos atrás, na cidade de São Petesburgo, havia uma situação desesperadora na comunidade judaica. Um jovem noivo, foi feito prisioneiro e seus raptores exigiam dez mil rublos para soltá-lo. Logo pensamos que talvez ele tivesse cometido algum delito, ou que tivesse sido sequestrado por ser muito rico, como acontece nos dias atuais. Nenhuma coisa, nem outra! Naquela época, isso era algo bem comum entre policiais ou autoridades corruptas: sequestravam um judeu e exigiam resgate! Pois sabiam que a comunidade faria de tudo, de tudo mesmo, até vender um precioso rolo da Torah, para salvar a vida de um judeu.
Três destacados estudantes do Talmud se reuniram para pensar em uma solução. Havia na cidade um judeu muito rico, porém muito famoso por sua mesquinharia. Ele era conhecido como Ze’ev, Lobo, e vivia mandando embora quem viesse lhe pedir doações.
O mais novo dos três estudantes, que viria a se tornar o famoso Rabi Shneur Zalman de Liadi, um importante nome dentro do hassidismo, os outros dois mais velhos: Rabi Levi Isaac de Berdichev e Rabi Mendel de Vitebsk.
Rabi Zalman insistia para que eles visitassem o velho pão-duro, os outros dois, porém, achavam que era pura perda de tempo, e tempo é algo muito precioso. Então, ele resolveu que iria sozinho. No entando, os outros dois, por solidariedade, decidiram acompanhá-lo. Mas o amigo impôs uma condição: que ficassem totalmente calados!
No mesmo dia os três se encontraram na soleira da porta de Ze’ev. Num primeiro momento, este pareceu surpreso, mas sentiu-se honrado por ter três rabinos à sua porta e convidou-os a entrar.
Acomodaram-se todos na sala de Ze’ev e Rabi Zalman relatou a Ze’ev a história do judeu sequestrado: Que ele era muito jovem, órfão e estava com o casamento marcado para dali a uma semana. Ze’ev, sentiu seus olhos lacrimejarem e compadeceu-se do rapaz. Levando a mão ao bolso, tirou uma moeda velha e  enferrujada de um kopek – cerca de um centavo. Contudo, ele parecia muito comovido, como se tivesse contribuindo com uma grande soma. Os dois estudantes mais velhos se chocaram com tanta mesquinharia, enquanto Rabi Zalman começou a elogiá-lo e abençoá-lo por tanta generosidade. Fazia-o de todo coração! Bendizia seus negócios, sua família, seus animais e desejava que ele fosse agraciado com o amor.
Assim que terminou, foram caminhando à porta, até saírem da casa de Ze’ev. Quando já estavam na rua, este os chamou de volta e disse: “Vocês me comoveram enormemente, por isso decidi fazer mais uma contribuição”. Colocou novamente a mão no bolso e retirou outro kopek, tão velho, sujo e enferrujado quando o outro. Os rabinos mais velhos se contorceram por dentro, porém como haviam prometido se calar, não puderam intervir. Mais uma vez, Rabi Zalman não mediu palavras para abençoar Ze’ev: que ele fosse próspero em tudo o que fizesse, que suas mãos fossem prósperas, que sua dispensa fosse sempre cheia, suas vacas produzissem muito leite e suas galinhas botassem muito ovos...e por aí foi por dez minutos.
Mais uma vez eles se retiraram. Os amigos não podiam se conter de indignação e Rabi Zalman pediu que se calassem. Ze’ev, ao vê-los se afastando, sentiu seu coração apertar e chamou-os de volta! Desta vez, colocou a mão no bolso e retirou um kopek feio e sujo, que depositou nas mãos de Rabi Zalman. Foi mais uma chuva de bendições! Que ele tivesse uma morte tranquila, que fosse recebido nos seios do pai Abrahão, que ele tivesse em sua mesa o melhor que esta terra pudesse produzir e que a sua casa tivesse livre de todo mal...mais dez minutos.
Uma vez mais alcançaram a rua e os dois amigos irritados queriam falar. Mas Rabi Zalman pediu que se aquietassem. Neste instante, escutaram a voz de Ze’ev, chamando-os de volta. Eles voltaram até a porta e dessa vez Ze’ev anunciou solenemente: “Quero fazer uma doação importante!”. E deu-lhes uma moeda de um rublo. E Shneur Zaman passou mais cinco minutos abençoando-o.
Mendel cochichou: : “Uma hora para conseguir um rublo! Só vamos precisar de dez mil horas para conseguir resgatar o jovem noivo. Talvez isso leve de quatro a cinco anos!”. Rabi Zalman sussurrou: “Silêncio”. Quando estavam na soleira da porta, Ze’ev os chamou novamente, e desta vez lhes deu dez rublos. Alguns minutos mais tarde, foram cem rublos. Depois quinhentos, depois mil. Por fim, após dezenas de idas e vindas, ele assinou um cheque com a quantia que faltava.
Os dois rabinos mais velhos estavam espantados! Tinham levado algumas horas, é bem verdade, porém agora tinham o valor integral para resgatar o moço. E quando se afastaram, eles perguntaram: “Como você conseguiu isso? Como você sabia que ele iria dar tanto?” Rabi Shneur Zalman disse:
“Quando nossos corações estão cobertos por uma couraça espessa, essa barreira, não só impede que algumas coisas entrem, mas também impedem que saiam. É impossível retirar a couraça de uma vez! Então, devemos encontrar um modo de abrir uma frestinha minúscula. Depois disso, cada pequena abertura de generosidade abre caminho para outra.”
Essa ideia de romper as “cascas”- KLIPOT- lentamente, serve tanto para caridade, como para o aprendizado, como para o amor!
Que possamos ter paciência conosco mesmo, neste caminho de estudo e aprendizagem. Tendo consciência que, por maior que uma árvore seja, tudo começou com uma pequena semente. Shalom.

(História adaptada do Livro “A Cabala- e a prática do misticismo judaico”, do Rabino David A. Cooper)

OS 4 SÁBIOS NO PARDES


O Talmud nos conta que haviam 4 sábios:
1)      Rabi Akiva (mestre de Rabi Shimon bar Yohai)
2)      Ben Azai
3)      Yohanan Ben Zakai
4)      Elisha ben Abouya
Todos eles eram muito amigos e muito sábios. Eles estudavam muito, discutiam e meditavam. Certo dia eles entraram num Pardes, ou seja, num Pomar. O que aconteceu depois foi surpreendente, pois cada qual, teve um destino bem diferente do outro. Os sábio do Talmud costumam se expressar da seguinte forma com relação ao que aconteceu com eles:
1)      Entra e sai.
2)      Entra e não sai.
3)      Não entra, mas sai.
4)      Não entra e não sai.
Muitos ortodoxos se baseiam nessa história para justificar o problema de leigos, néscios e imaturos estudarem a Kabbalah. Eu vou mais longe: isso não acontece apenas com a Kabbalah! Isso acontece no Xamanismo, na Umbanda, no catolicismo, entre os Evangélicos e todos aqueles que buscam o caminho espiritual.
Adentrar no território do sagrado exige muitas qualidades do discípulo: disciplina, firmeza de caráter, amor, humildade. Entre tantas outras! Não basta apenas querer.
Jesus já dizia: “Desde o início dos tempo, o Reino de Deus é tomado por esforço”, Mateus 11:12. E o Reino de Deus não é Pardes? Não é o Paraíso? As pessoas imaginam o Céu, ou o Paraíso, como um local de completo ócio. Onde, uma vez lá dentro, não se precisa fazer mais nada!
O discípulo começa a sua jornada com grande vontade. Desde o instante em que ele tenha tido uma experiência com o Eterno, tenha sentido o vislumbre do seu poder, daí começam os problemas. Vamos entender o porquê observando nossos 4 sábios.
O que significa “Entra e não sai”? Esse foi “Ben Azai”, que ficou louco, segundo  o santo livro. Significa que ele teve uma experiência com o divino, porém sua estrutura emocional, psíquica, não suportou o que viu.
Temos que entender uma coisa: a Kabbalah é um conhecimento por demais abstrato e fora de toda lógica cartesiana, racional. Vc pode se dedicar anos a aprender a Kabbalah, vc pode aprender os nomes das Sephirot, dos anjos, uma infinidade de coisas, sem contudo, nunca ter tido o verdadeiro “Recebimento”. Em outras palavras: sem a dádiva da Kabbalah ter se dado, ou se revelao a você. Por isso muitos ouvem sobre Kabbalah, mas poucos conseguem explicar o que é, e bem menos ainda, conseguem adentrar o Pardes.
Então esse sábio, Ben Azai, chegou a adentrar o Pardes. Porém, não teve estrutura para lidar com Sua Grandeza. Ele se perdeu para sempre naquele outro mundo fantástico. Quantos nós conhecemos que têm uma experiência divina e não conhecem voltar? São os ditos fanáticos. Vamos pensar sobre isso.
O terceiro sábio, Yohanan ben Zakai, não entra e não sai! Mas o Talmud não nos diz que os 4 entraram no Pardes? Na verdade, estamos falando de dimensões diferentes, em níveis diferentes de “entrar”. Este sábio nos dá uma lição de sabedoria e conhecimento próprio. Ele consegue vislumbrar-ver antes- a imensidão do Pardes, reconhece sua frágil estrutura e recua, “Sai antes”. Espero que para se preparar melhor pois reconhece que “não era a sua hora”.
E o quarto sábio, Elisha ben Abouya, não entra e não sai. Esse é o que virou ateu ou herege. O Talmud nos conta que este sábio tinha um nível de compreensão tão elevado, comparado ao próprio Moshe Rabeinu – nosso Moisés.
Vc pode perguntar: “Mas eles não eram sábios?”
Sim. Todos aqueles que buscam religar-se  a algo maior que o mundo da aparência é sábio. Porém o ‘Poder” corrompe até as almas mais ilustres. Por este motivo a Kabbalah esteve oculta por tantos milhares de anos e só agora é chegado tempo dela ser revelada ao mundo.
 E o que aconteceu com o primeiro sábio, Rabi Akiva?
Rabi Akiva, ou Rabbi Akiva Ben Yossef, foi o único que conseguiu fazer a ponte entre o mundo das dimensões superiores e o nosso mundo de quarta dimensão. Dizem que ele era um homem muito simples  era completamente analfabeto até os 4º anos de idade. Um dia uma moça muito rica se apaixonou por ele e ele por ela. Mas ela impôs uma condição para casar-se com ele: Ele teria qu estudar a Torah. Eles se casaram e viveram com muita dificuldade antes que o pai da esposa aceitasse a união e visse o bom caráter do marido da sua filha.

Ela aceitou viver longe dele enquanto ele se dedicava integralmente aos estudos. E ele honrou tamanho sacrifíco se tornando um grande sábio. Teve inúmeros discípulos entre eles Rabbi Shimon Bar Yohai, o  Hashi! O sábio dos sábios! Aceito como o fundador da Kabbalah devido ao seu mérito por ter redigido, entre outras obras importantíssimas, o Zohar.

Akiva é citado no Talmud como "Rosh la-Chachamim" – “Guia para os Sábios”.

NIGUN



"Nigun” significa melodia em hebraico. O plural, melodias, se diz “nigunim” É um canto circular, cuja intenção é abrir os portões da alma em direção ao Êxtase Sagrado, a transcendência, que deve ser trazida a terra para despertar os corações da humanidade às verdades interiores, a Deus.
No lugar das palavras que, segundo a tradição Kabbalista Hassídica, limitam e definem a mente, são usadas sílabas.

“A canção”, segundo Rebe de Chabad, “está no âmago da vida; sua fonte é o êxtase mais sobrenatural. Ele nos diz:

"Um rio descia do Éden para regar o jardim…” ,Bereshit(Gênesis) 2:10 Vindo da fonte de todo o deleite, o rio da vida flui para baixo, ramificando-se para cada mundo e para todo ser criado.
Cada coisa anseia para juntar-se com sua fonte acima, e deste anseio vem sua canção, e com aquela canção ela se torna viva. Os céus cantam, o sol, os planetas e a luz; cada animal, cada planta, cada rocha tem sua canção particular, segundo a qual maneira para receber a vida”.

  O nigum é essa melodia que se faz, na maioria das vezes, sem acompanhamento de instrumentos. E que qualquer um, independente da classe social, grau de instrução, idade ou sexo, pode realizar. É uma música da alma.
Vejo que nosso povo brasileiro mais antigo tinha esse costume. Lembro da minha avó que passava o dia num interminável ningun enquanto fazia o serviço de casa. E o meu avó, enquanto amarrava as vassouras. Eles estavam sempre alegres  e exalando paz, fazendo jus ao ditado que diz que “quem canta, os males espanta”!

Quando minha filha nasceu sentia uma vontade enorme de expressar meu amor e gratidão, e assim surgiam músicas sem palavras, mas com muita alma, por isso vivia com umas “musiquinhas” nos lábios o dia todo. Era alguma coisa do tipo: daidai..lailá.., hunhum... Acho que é isso que as mães fazem quando cantam para seus bebês.

O Talmud nos conta que antes que o Universo fosse criado, existiam 10 (dez) coisas. Muito antes das próprias palavras, do verbo, existia o ritmo, existia a música. Ela é primordial a toda vida terrestre.

Com os nigunim aprendemos que somos Almas Cantantes. Nascemos da música celestial e retornaremos para a ela definitivamente quando deixarmos este corpo denso, mas não precisamos esperar este dia para sentir os acordes do Universo.
Que sejamos música 24 horas por dia, deixemos nossos corpos mais leves e em constante bailado e que nossos lábios tragam sempre uma melodia de louvor  e gratidão ao Criador e por tudo o que existe.


A SANTA TORAH


O que é a Torah? De onde ela surgiu?
Muito antes das águas, do fogo ou do próprio ar....Muito antes do dia ou da noite... E muito antes que o próprio Adão, ou qualquer ser humano fosse criado, Ela, a Torah, já existia!
Quando falamos em Torah, estamos falando de uma Personalidade autônoma, ou seja, com vida própria. A bíblia impressa, ou o rolo de pergaminho, é apenas a sua manifestação física, sua superfície.
Por isso, quando o Eterno, Bendito seja Ele, resolver presentear a humanidade com sua Santa Torah, houve uma verdadeira revolta no Céu. Pois, como sempre, o Senhor permite a liberdade de pensamento, jamais impondo sua vontade até mesmo aos anjos. Dessa forma, o Senhor, foi questionado por um Querubim:
“- Mas Senhor, os humanos são maus, cheios de defeitos e falhas! Dê a Santa Torah para nós, seus anjos!” Eles, mais do que ninguém, sabiam da grandeza daqueles ensinamentos.
O Senhor respondeu ao Querubim: “- Te apresentarei ao meu servo Moisés, assim você poderá entender o porquê dos humanos necessitarem Da Torah”.
O Eterno levou Moisés até o Céu  -totalmente consciente, pois ele foi o único que conseguiu tal feito- e o colocou diante do Querubim para conversarem. E assim se deu o encontro entre Moshe Rabeinu (Nosso Moisés) e o anjo.
O anjo falava das maravilhas do céu e da perfeição de tudo que Deus criou.
Moisés lhe perguntou sobre seus pais. Ele respondeu que não tinha. Perguntou sobre seus filhos. Ele disse que também não possuía. Moisés, com sua extrema humildade, queria saber sobre os sogros, sua moradia, problemas com a justiça, com o clima, a colheita, a seca, das ovelhas com filhotes...porém o anjo desconhecia qualquer desses assuntos.
Foi assim que o anjo compreendeu que eles não precisavam da Torah, e sim os humanos.
Com essa história podemos cair no erro de pensar que a Torah é simplesmente um manual de bem viver. Não se iluda!
 APRECIAÇÃO é a palavra-chave para começarmos a penetrar na imensidão e magnificência de toda criação divina.

Essa simples história, nos faz entender um pouco sobre a real identidade da Torah, que é subjacente, ou seja, que já está! Mas que por algum motivo permanece oculta. Esta é a diferença entre “Ouvir” e “Dar Ouvido” (prestar atenção), que Moisés sempre lembrava ao povo de Israel. Ou como Jesus costumava dizer, a Torah é “Para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir”.