sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sucot e o Espaço e Tempo



O que é Sucot? O Sucot faz parte das comemorações que inauguram o Novo Ano Judaico, após os pesados dias de Yom Kipur. É uma época para lembrar o tempo em que Israel viveu peregrinando no deserto sob a sombra protetora de D’us. E aí reside a questão: viveu ou vive? Podemos pensar que, metaforicamente, ainda passamos por desertos e o Eterno, com sua infinita misericórdia, ainda nos guarda. Mas não falo disso. Falo de um tempo real. Será que aquele tempo passou? Já não existe mais? Ou ele continua ressoando em algum lugar do Universo?
E a festa de Sucot é justamente, o momento de conectarmos com aquele tempo, com aquela energia que não passou, mas que está acontecendo em algum lugar neste momento. Confuso? Pode parecer, mas é bom nos acostumarmos com estes conceitos. A questão da infinitude do tempo, a que chamamos Eternidade é muito mais do que isso. Quando falamos em Eternidade imaginamos uma linha reta, sem começo nem fim. Mas e se pensarmos que não existe essa linha reta? Apenas um único ponto no qual tudo existe simultaneamente? Palavras como Passado ou Futuro desaparecem totalmente. O que fica é um Presente. Infinitamente mais rico e intenso. Um Presente Glorioso e Espetacular, tal como no dia da Criação, pois o Dia da Criação não deixou de existir, não está no passado. Ele está acontecendo neste exato momento. A mesma intensidade ainda pulsa. Adão ainda vive, as estrelas e os rios estão sendo formados neste exato momento. Isso para a Kabbalah não é novidade. Só que de tão real e banal, os místicos raramente pararam para teorizar sobre isso.
Bem, falamos do Tempo, e isso nos parece até familiar, como máquinas do tempo ou viagens à velocidade da luz. Mas ainda existe um outro ponto: o Espaço. Falava sobre Sucot, cujo símbolo é  a Sucá, ou seja “Cabana”. Construímos cabanas de acordo com as normas da Torah e por alguns dias vivemos ali. Ali fazemos nossas orações e comemos sentados próximos ao chão. O que te parece entrar em uma cabana para poder viajar no tempo e poder se conectar com a energia da proteção divina no deserto? A Cabana ou Sucá é este lugar sagrado, a nave mãe, ou o portal, o não-lugar capaz de nos conectar com qualquer um outro lugar. É de perder o chão! Sim. Pensar no Espaço tão concreto, na terra querida que pisamos e aceitar que isto aqui não existe, pode parecer demais para nossa mente! Este é outro ponto também muito conhecido dos mestres da Kabbalah.
Sempre que lia alguma história de Baal Shem Tov, ela normalmente começava assim: “ E Baal Shem Tov, juntamente com seus discípulos, tomaram uma carruagem e foram de Medjibur a Vilna, há algumas semanas de viagem dali...e em poucos minutos estavam em Vilna, pois isso sempre acontecia nas viagens com o mestre...” Isso me desconcertava. Contudo não havia qualquer explicação ou estranhamento com relação a este fato por parte do narrador. Ultrapassar barreiras físicas, grandes distancias, pegar atalhos por meio de uma carruagem.. nada de anormal...Coisa corriqueira... Nisso imagino o diálogo de Moisés com seu irmão Arão: “Olha, vou subir ali no monte e vou para o Céu falar com D’us. Cuida de tudo que logo desço”.
A sucá tem esse papel: o de ser um portal para além do tempo e do espaço. E, segundo o Zohar, ela possui uma ligação intrínseca com a Arca de Noé. No mundo há muitos portais físicos para outras dimensões: Jerusalém, Machu Picho, Triângulo da Bermudas... Mas o que o Criador quer nos ensinar quando nos manda construir nossa Sucá é que este portal pode ser criado por nossas próprias mãos, ou seja com nosso próprio esforço de vencer o Ego e as limitações da nossa mente. Aí, nós não teremos um portal, nós seremos o próprio Portal. Shabat Shalom!

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