sábado, 7 de setembro de 2013

RETIRANDO A KLIPAT - CASCA


Era uma vez, há cerca de 200 anos atrás, na cidade de São Petesburgo, havia uma situação desesperadora na comunidade judaica. Um jovem noivo, foi feito prisioneiro e seus raptores exigiam dez mil rublos para soltá-lo. Logo pensamos que talvez ele tivesse cometido algum delito, ou que tivesse sido sequestrado por ser muito rico, como acontece nos dias atuais. Nenhuma coisa, nem outra! Naquela época, isso era algo bem comum entre policiais ou autoridades corruptas: sequestravam um judeu e exigiam resgate! Pois sabiam que a comunidade faria de tudo, de tudo mesmo, até vender um precioso rolo da Torah, para salvar a vida de um judeu.
Três destacados estudantes do Talmud se reuniram para pensar em uma solução. Havia na cidade um judeu muito rico, porém muito famoso por sua mesquinharia. Ele era conhecido como Ze’ev, Lobo, e vivia mandando embora quem viesse lhe pedir doações.
O mais novo dos três estudantes, que viria a se tornar o famoso Rabi Shneur Zalman de Liadi, um importante nome dentro do hassidismo, os outros dois mais velhos: Rabi Levi Isaac de Berdichev e Rabi Mendel de Vitebsk.
Rabi Zalman insistia para que eles visitassem o velho pão-duro, os outros dois, porém, achavam que era pura perda de tempo, e tempo é algo muito precioso. Então, ele resolveu que iria sozinho. No entando, os outros dois, por solidariedade, decidiram acompanhá-lo. Mas o amigo impôs uma condição: que ficassem totalmente calados!
No mesmo dia os três se encontraram na soleira da porta de Ze’ev. Num primeiro momento, este pareceu surpreso, mas sentiu-se honrado por ter três rabinos à sua porta e convidou-os a entrar.
Acomodaram-se todos na sala de Ze’ev e Rabi Zalman relatou a Ze’ev a história do judeu sequestrado: Que ele era muito jovem, órfão e estava com o casamento marcado para dali a uma semana. Ze’ev, sentiu seus olhos lacrimejarem e compadeceu-se do rapaz. Levando a mão ao bolso, tirou uma moeda velha e  enferrujada de um kopek – cerca de um centavo. Contudo, ele parecia muito comovido, como se tivesse contribuindo com uma grande soma. Os dois estudantes mais velhos se chocaram com tanta mesquinharia, enquanto Rabi Zalman começou a elogiá-lo e abençoá-lo por tanta generosidade. Fazia-o de todo coração! Bendizia seus negócios, sua família, seus animais e desejava que ele fosse agraciado com o amor.
Assim que terminou, foram caminhando à porta, até saírem da casa de Ze’ev. Quando já estavam na rua, este os chamou de volta e disse: “Vocês me comoveram enormemente, por isso decidi fazer mais uma contribuição”. Colocou novamente a mão no bolso e retirou outro kopek, tão velho, sujo e enferrujado quando o outro. Os rabinos mais velhos se contorceram por dentro, porém como haviam prometido se calar, não puderam intervir. Mais uma vez, Rabi Zalman não mediu palavras para abençoar Ze’ev: que ele fosse próspero em tudo o que fizesse, que suas mãos fossem prósperas, que sua dispensa fosse sempre cheia, suas vacas produzissem muito leite e suas galinhas botassem muito ovos...e por aí foi por dez minutos.
Mais uma vez eles se retiraram. Os amigos não podiam se conter de indignação e Rabi Zalman pediu que se calassem. Ze’ev, ao vê-los se afastando, sentiu seu coração apertar e chamou-os de volta! Desta vez, colocou a mão no bolso e retirou um kopek feio e sujo, que depositou nas mãos de Rabi Zalman. Foi mais uma chuva de bendições! Que ele tivesse uma morte tranquila, que fosse recebido nos seios do pai Abrahão, que ele tivesse em sua mesa o melhor que esta terra pudesse produzir e que a sua casa tivesse livre de todo mal...mais dez minutos.
Uma vez mais alcançaram a rua e os dois amigos irritados queriam falar. Mas Rabi Zalman pediu que se aquietassem. Neste instante, escutaram a voz de Ze’ev, chamando-os de volta. Eles voltaram até a porta e dessa vez Ze’ev anunciou solenemente: “Quero fazer uma doação importante!”. E deu-lhes uma moeda de um rublo. E Shneur Zaman passou mais cinco minutos abençoando-o.
Mendel cochichou: : “Uma hora para conseguir um rublo! Só vamos precisar de dez mil horas para conseguir resgatar o jovem noivo. Talvez isso leve de quatro a cinco anos!”. Rabi Zalman sussurrou: “Silêncio”. Quando estavam na soleira da porta, Ze’ev os chamou novamente, e desta vez lhes deu dez rublos. Alguns minutos mais tarde, foram cem rublos. Depois quinhentos, depois mil. Por fim, após dezenas de idas e vindas, ele assinou um cheque com a quantia que faltava.
Os dois rabinos mais velhos estavam espantados! Tinham levado algumas horas, é bem verdade, porém agora tinham o valor integral para resgatar o moço. E quando se afastaram, eles perguntaram: “Como você conseguiu isso? Como você sabia que ele iria dar tanto?” Rabi Shneur Zalman disse:
“Quando nossos corações estão cobertos por uma couraça espessa, essa barreira, não só impede que algumas coisas entrem, mas também impedem que saiam. É impossível retirar a couraça de uma vez! Então, devemos encontrar um modo de abrir uma frestinha minúscula. Depois disso, cada pequena abertura de generosidade abre caminho para outra.”
Essa ideia de romper as “cascas”- KLIPOT- lentamente, serve tanto para caridade, como para o aprendizado, como para o amor!
Que possamos ter paciência conosco mesmo, neste caminho de estudo e aprendizagem. Tendo consciência que, por maior que uma árvore seja, tudo começou com uma pequena semente. Shalom.

(História adaptada do Livro “A Cabala- e a prática do misticismo judaico”, do Rabino David A. Cooper)

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